A Imagem, por Murilo Lima Munhoz

 

     De bruços sobre a cama, Alberto e Venâncio liam juntos um livro emprestado da biblioteca municipal, comovidos com a aparente maturidade do assunto, numa hora em que já deviam estar dormindo. Uma brisa enfunava as persianas da janela, desbaratadas por anos de fina displicência, e uma luminária improvisada pela complacência do pai guiava a visão cada vez mais especializada, cada vez mais delicada dos gêmeos.  Simultâneos nos pijamas de cores iguais, nos cabelos caindo em idênticos anéis sobre a testa, podiam ler com a mesma rapidez, mas ocorria às vezes de um ameaçar virar a página primeiro, e o outro então tinha de lhe proibir o gesto, pousando sua mão sobre a dele em silenciosa queixa. Comprimidos no estreito colchão, pareciam arriscar-se nalgum pequeno barco à deriva, quando tudo ao seu redor tinha assumido uma ordem própria: os pares de meias atirados sobre o tapete, à espera do sol que os esquentasse; dois copos que um dia pararam de rolar, inconformados contra o encosto das mochilas; a porta do guarda-roupa deixada entreaberta e na qual havia um espelho capaz de repetir o caminho do corredor, naquela espécie de infinito que não ia além daquilo mesmo que refletia, tal qual se a dura superfície dissesse: “Isto é o que é, e não procurem mais”.

        Anos começavam já em que a disputa das ruas, em meio ao asfalto rotineiro e à banalidade das outras crianças, despertava por vezes a desconfiança entre os irmãos. Era preciso, por exemplo, defender Alberto duma possível ameaça de escárnio, mas o segredo ou aquilo que ele supunha ser um segredo turbava Venâncio, e era necessário então desejar estar só. Era à noite, sob o teto paterno, acotovelados e unidos pelas sutis diferenças de trejeitos, longe de toda aquela impiedade, que podiam entregar-se totalmente a uma contemplação mútua e afetuosa. Apreciavam sobretudo estas horas de silêncio em que apenas se escutava ao longe o alarde das ondas, do mar abarcante engolidor de naufrágios, a apenas três quadras dali, repetindo-se e variando infinitamente. Parecido ao som da fervura do leite pela manhã, ameaçando derramar-se sem a vigilância da mãe; parecido ao tremelicar da folhagem no quintal, quando despertada pelos jatos gelados duma mangueira; parecido a tantas coisas que aos poucos se encobriam; tal qual o sono, tal qual nas grutas visitadas pelo eco, havendo se aproximado a tempestade. Uma flauta ouviu-se lá fora, erguendo-se de entre as pedras umedecidas, e um homem, com uma manta felpuda atirada sobre os ombros, adentrou a sala. Escuro e mudo caminhou devagar em direção ao calor modesto de um aquecedor. Souberam então que ovelhas bailavam voluntariosas em círculos concêntricos, e pastores, à entrada de cavernas, nutriam suspiros tão brancos quanto a crua lã de suas vestes apenas essenciais. Venâncio olhava agora para o irmão, a testa franzida.

        Houve um tempo, pensou, em que a falta de exemplos no passado propiciava ao mundo um frescor perene. As coisas formavam pares consigo mesmas, da mesma forma que cada coisa podia achar seu par em cada coisa ao seu redor. O mel era atingível em toda parte. O sol variava num presente eterno. As pessoas podiam tecer coroas de flores com as flores ao seu alcance, e seu gesto era ao mesmo tempo primitivo e novo. Esse tempo tinha passado. As coisas perderam seu par. O espantoso, em seu divino manto enodoado de rosa, engalfinhou-se com a poeira. Os detalhes assomaram, e enjoou-se. Candelabros de lâmpadas amarelas, apoiados nas paredes revestidas de madeira, iluminavam o restaurante privado da luz natural, e as sombras longas e líquidas pareciam que a qualquer instante, ao menor sinal de estranheza, se desfariam. Henrique, sentado ao seu lado, num terno cinza e com finas listras âmbar esboçou-lhe um sorriso. Seu pescoço subia e descia sob o colarinho azul claro, conforme o agitar brando de seu humor. Nalgum momento de sua vida, ele passara a barbear-se por inteiro, de modo que seu rosto sombreava-se de anil até o limite do pomo de adão, quando então outra sombra, de cor mais escura, começava descendente até as regiões do peito, numa viagem sem pausa sob a camisa. Alberto apertou-lhe o pulso em que usava o relógio, arrastando seu olhar até um ponto ínfimo entre o ombro de Henrique e os fundos do restaurante. Sons subiam até o teto em degraus esfumaçados, indefinindo-se rumo ao abafamento. Copos e pratos falhavam em estilhaçar-se desde a cozinha. Os garçons moviam-se com bandejas por entre estreitos corredores formados pelas cadeiras dispostas em hexágonos, como se numa colmeia perturbada pelo calor. As mesas de madeira, cobertas por uma longa toalha branca e por um retângulo vermelho, tremiam de quando em quando com o levantar-se de alguém, com o agachar-se para retomar o talher que caíra. “Não se esquece” – disse Henrique, olhando para Alberto que se erguera da cadeira. Ao abrir a porta do restaurante, acenou-lhe uma última vez, recebendo na bochecha esquerda uma lufada de ar quente, conforme voltara seu rosto.

        Era preciso andar até a praça da matriz, e então contorná-la, subindo a alameda principal até o colégio D. Pedro II, onde, sob a sombra das grades do portão, encontraria ainda quatro adolescentes em uniformes escolares, as camisetas de algodão branco, um deles com sapatos ruidosos, e todos eles numa espécie de escândalo contido, consonante com o farfalhar das árvores crescendo ao longo da ladeira. O peso da pasta curvava sua coluna. O sol divergia conforme o escorrer das nuvens. O nó dos cadarços começava a afrouxar-se. Próximo ao mercado público, levantando um pouco a testa, escutou primeiro o barulho de tambores e então viu, ante a fachada de um edifício antigo, dançarinos com camisetas brancas, alguns músicos, e tantos outros preparativos que o fizeram parar por um instante. Não muito longe dali ficava o túnel por onde descobriria que os taxistas o tinham enganado muitas vezes, fazendo-o tomar o caminho mais longo até a Consolação, o qual pegava toda a margem norte, ao invés de muito naturalmente tomar a margem sul e então seguir pelo meio da cidade. Foi só quando um taxista mais confiável o levou através do túnel que se lembrou de que era aquele mesmo caminho por que Henrique o havia trazido de carro certa vez, alguns anos atrás. Reconhecera primeiro a curva acentuada, e após ela a vista do morro com as casas embaciadas pelo branco da luz, quando então tudo ficou muito claro. Tudo já era de alguma forma, e não houve durante toda sua vida necessidade de procurar alhures.

        A felicidade para Alberto alcançara ser um refúgio. As coisas eram felizes na medida em que transparecessem uma espécie de calma e de orgulho. A felicidade era restrita: os não eleitos se esqueciam, e se perdiam por um caminho ascendente ladeado de oliveiras. Sobre a escrivaninha, havia deixado, debaixo do bonsai com que lhe presenteara Henrique, um livro que queria mostrar a Venâncio. Venâncio que se tornava cada vez mais silencioso, cada vez mais distante, como se o evitasse, como se evitasse encontrar nele a comparação. Mas qual comparação? Devia haver alguma? Quão natural, pensou, enquanto subia a alameda, pisando sobre os próprios cadarços, rumo ao semáforo e à escadaria branca que dava para o outro lado da quadra, rumo ao som evanescente de batuques que ele mesmo deixava para trás. Pensou então em contar a Henrique que lembrar-se de tantas coisas seria o próprio esquecimento. Esquecer-se de tudo, ao contrário, seria como pensar em todas as coisas presentes, como uma lembrança vazia que alcançasse estar em todos os lugares. Um catador de lixo, guiando uma carroça puxada por um cavalo de pelagem negra e sofrida, atravessou-lhe o passo. Do alto de seu assento de papelão, coroado por translúcidas gotas de suor, olhou-o de sob o chapéu de palha, de abas largas.

        Súbito, deixou escorregar a mão que segurava a corrente da bicicleta. O céu, observou, ganhava cores flamejantes, conferindo ao cansado continente um quieto sentimento de irrealização. Ela o procurava. Venâncio nunca respondia imediatamente. Cedo, debandara-se para o silêncio e para onde mais fosse espaço inexplorado. Gostava de trilhas, de expor-se ao sol, de passar horas em meio à geografia pura. Parecia arriscar-se mais, mas o risco que corria não era nunca entre as coisas comparáveis. Gostava de ficar assim, os olhos negros e escondidos revoltando-se contra a luz do sol. Tinha uma barba muito cheia, que escondia os lábios e todo o queixo, e sob a qual se farejava a sua ocasional falta de seriedade, de que por vezes se queixava Alberto. A verdade é que ameaçava a hipótese de nunca mais voltar. Havia subido o morro da Cruz, e agora pela terceira vez tinha de recolocar a corrente que escapara, quando bem podia desistir de tudo e ficar por ali, até que alguém viesse, para convocá-lo a moradas superiores; para convidá-lo a descer, sob ordens proferidas em tons ascendentes.

        Num banco de ferro, sob a figueira, um casal retardatário tirava fotos. Venâncio, tendo encostado a bicicleta na lixeira, sentara-se no banco oposto. “Desenhei a figura duma pizza em teu caderno para não ter de desenhar flores”, pensou em responder, mas então notou que poderia dar a entender outra coisa, num fluxo infinito de não entendimentos e de substituições inadequadas. O fato de declarar que evitara desenhar flores poderia insinuar algum desejo secreto, mais do que se simplesmente as tivesse desenhado, pois era indicando o negar de seu gesto que ele desencadeava todo o potencial significado das flores. Declarar a ausência das flores, pensava, seria como ligar um remoinho de flores, de tal modo que as flores se fizessem inapagáveis, na mesma medida em que não fossem presentes elas próprias – o ausente sendo igual ao pôr-se em movimento das coisas ao redor, ecoando em alarde a sua falta. Ora, uma presença é sempre algo que está diante, exceto talvez o reflexo do espelho, que é a ilusão. O refletido não está diante de si mesmo ao ver o seu reflexo, nem é o reflexo alguma outra existência, de modo que nunca alguém pode estar presente para si mesmo. Se algo assim fosse possível, seria necessário procurar dentro de si mesmo, revirar o remoinho de seus primeiros pensamentos, até que se encontrasse o seu perfeito igual, a acalmada imagem nascida da convulsão. Seria necessário, antes que buscá-lo, ser esse ser dos sonhos. E então encarar o mundo a partir do centro. Os paralelepípedos de pedra perdendo-se ladeira abaixo. Os passarinhos de tons marrons ciscando entre as folhas secas. O mar arroxeando-se ao fundo e mansamente faiscando ao longo dos navios que aguardavam atracar no porto. Venâncio inclinou-se para colher a moeda que escorregara de seu bolso e que rolara junto ao seu tênis. Segurou-a entre seus dedos, um tanto sujos de graxa; a efígie apagada pela corrosão do tempo, cor de bronze.

        Lembrou-se da gaiola enchida de luz, e da mesa de vidro sob a qual se podia ver suas pernas cruzadas, astutamente. A cafeteira italiana posta sobre um suporte de alumínio, e o café servido numa xícara pequena e branca, que ele entornou duma só vez, fazendo um gesto exagerado de presteza e devoção, com o queixo apontado para cima e uma das mãos postas na cintura. Na praia, caminhariam contra o forte vento que soprava do continente, em sentido vertical, sob um céu denso de inverno, os sapatos afundando na areia acinzentada pelo frio e coberta por manchas de restinga. Onda após onda o mar ia diminuindo suas pernas, refluindo por entre as suas coxas, até que a espuma lhes alcançasse a cintura, em alturas idênticas. De sobre as cristas ruidosas e fervilhantes, derrubariam aurigas, esposas de reis, no obstáculo do peito e das costas; redobrariam os esforçados fluxos da maré. Nadariam para mais longe, até que seus pés encontrassem um banco de areia, a afundada arquitetura onde pudessem manter-se a salvo das ondas mais altas, dos percalços da tempestade, do oceano revindo em cúspides colidentes. De lá, pôde o ar repartir os seus lábios.  Alberto pusera-se diante dele, abarcante. Dividiram os cuspes de sal.