A lição dos poetas, por Carvalho Filho

O poeta Bocage começa assim um de seus sonetos mais belos: “A frouxidão no amor é uma ofensa”. Nesse sentido, o amor deve ser intenso, arrebatador, uma força capaz de nos aquecer o coração. Amor combina com calmaria, ou deve sempre queimar em labaredas invencíveis? Acaba o amor? Ou sendo amor, dura eternamente? Quando duas pessoas decidem unir-se no mesmo laço, dividir o mesmo prato, o mesmo cobertor, estão cientes de que esse sentimento, esse nó no coração, pode um dia vir a ser rompido bruscamente? Ah, a imagem leve de um casal de namorados. Todos não deveríamos passar dessa fase! Ali é possível encontrar o início e a pureza de dois seres acometidos de amor.

Por amor se mata e morre. Como diria Gonçalves Dias: “Se se morre de amor!”, o amor muitas vezes é tirano, outras vezes, o mais apaixonado democrata. Claramente vê-se que os efeitos do amor podem levar ao caminho da tumba. Amor é desejo, um desejo que não passa. Amor é querer o que se tem. Será que aos poucos a fogueira vai se transformando em brasa, por fim em cinza? Imaginamos que o nosso caso é a exceção, a belíssima joia dentre a bijuteria. Ledo engano depositar na criatura amada a razão de nossa existência. Em primeiro lugar devemos nos amar. É preciso achar felicidade na companhia de outras pessoas e não somente quando acompanhados de nosso par, mesmo que o par nos pareça gêmeo.

Amamos um ideal, uma imagem, não a pessoa em si, mas a ficção que da pessoa fizemos. A idealização nos faz correr atrás daquela pintura perfeita, imaculada e sacrossanta. A relação a dois, para além do plano metafisico, consiste em uma eterna negociação na qual ninguém deve devastar demais o terreno do outro. Somos florestas cuja magia não pode jamais ser derrubada pela imposição, pela desconfiança, e mesmo pelo próprio amor. Rubem Alves diria que: “Amamos a bela cena antes de amarmos a pessoa”. Completar essa cena é o que fazem os apaixonados, na sua ânsia. Rubem diz-nos ainda: “A busca amorosa é a busca da pessoa que, se achada, irá completar a cena”.

A cena, porém, é frágil, como o são todas as flores, e muitas vezes guarda em si um quê de trágica. Uma vez desfeita, não adianta tentar remendá-la. Há amores e amores. Abstenho-me de julgar o merecimento deste ou daquele amor, afinal, cada caso é um mistério. Em certas circunstâncias cabem bem as palavras de Nelson Cavaquinho: “Eu só errei quando juntei minha alma a sua, o sol não pode viver perto da lua”. O amor que termina traz consigo a força de uma estrela que se vai, de uma nota plangente de Chopin, de um pássaro caindo aos pedaços.

Carvalho Filho (escritor)

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