A palavra como exercício de lucidez, Por Alzerina Pinho.

Um vídeo me chega pelo WhatsApp, vindo de um ex-colega de trabalho.
Observo com especial atenção a barra do infinito ladeado de azul, de um céu excepcionalmente límpido e um mar que parece ter sido pintado pela fada dos mares, de um azul que até as algas daquelas águas duvidam. Mas estão lá: céu, mar, horizonte… Enquanto o drone se esmera em voltas sobre a paisagem e um grupo de pessoas, lá embaixo, começa a compor o cenário.
É um coral de vozes que executa uma canção que fala em mar, não há nenhuma mais apropriada e eu quase consigo sentir a brisa que envolve todo o grupo.
O drone sobrevoa mais alto e exibe a exuberância da natureza e a arte arquitetônica do lugar. À distância, as pessoas parecem pequeninos pontos que se ajuntam para não dispersar, e, de alguma forma, se certificar da possibilidade do desafio de cantar.
De perto é possível ver o semblante de cada componente que dá vida àquela canção. Todos vestem roupas brancas e, ao centro, acima do branco que integra e harmoniza, certo colorido me chama atenção e aguardo a proximidade das faces para identificar uma flor registrando ali, sobre os cabelos de alguém, um não sei quê de colorido descabido que achei melhor ignorar. Mas, para surpresa minha, reconheci naquele semblante uma persona non grata para mim.
Daqueles ‘alguéns que passam pelo nosso caminho e espalham dor que um dia, mesmo quando já não importa, recorda dor.
Essas ocorrências que reabrem dores, ou mesmo que as produzem, nos assaltam todos os dias. O cotidiano está cheio de açoites que perturbam as paisagens, destoam os cantos, desapontam, machucam.
No mesmo dia, vejo com profunda tristeza os noticiários veiculando um novo suicídio. Porque chega um dia em que não conseguimos mais absorver esses açoites que nos rondam, não conseguimos mais processar as pressões que nos minam a resistência.
Fico grata à palavra que sempre me resgata. À palavra que, mais que expressão de sentimentos de mim e do mundo, é exercício de lucidez.
Àquele ponto branco de dor, meu antídoto:

do alto
a flor inflama o branco
como se dor não fosse nome
fosse espanto

do ar
intriga e (resto de) agonia antiga
sobrevoam, alheias
à aflição que petrifica

o canto revisita acidez
de ontem disfarçada em lucidez
de novo cruza a estrada larga
a lagarta que a desfez.
(Canta Mar Azul, Alzerina Pinho)

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