Arte da Palavra – Resultados da oficina de contos com Vanessa Trajano em Itajaí (SC)

 

Da oficina à expulsão

Calma, ninguém foi expulso. No entanto preciso fazer uso dessa palavra que tão bem designa o resultado da oficina ministrada por mim no Sesc de Itajaí-SC, entre os dias 19 a 23 de junho. Oficina vem do latim “opificium”, que significa ofício, negócio. Algo que demanda tempo e dedicação para fazer, tal como artesanato. 5 dias, portanto, não oferecem nenhuma fórmula milagrosa de como escrever, apesar das técninas que foram trabalhadas e diluídas juntas. E quando a coisa começou a ganhar forma…. Bem, a surpresa e o arrepio foram unânimes.
Eu não poderia deixar tais preciosidades escaparem. Nem eles. Fiz amizades. Já não eram só meus alunos. A experiência ali foi tão especial que duvido se viverei algo parecido novamente. E sem querer fazer a errônea associação entre autor e obra, ao ler os contos produzidos, relembrei da personalidade de cada um, como se estivéssemos nos reencontrado. É esta a sensação de que se tem quando se lê um poema ou crônica ou qualquer escrito de algum amigo distante?
Ao receber, por exemplo, o conto-poema do Ricardo, comecei a sorrir – embora o texto não tenha nada de engraçado, pois trata-se de uma tragédia. Ri porque fico inteiramente satisfeita ao conhecer um poeta com dom para rimar. É o caso dele, que mesmo tentando fazer um texto em prosa aqui e acolá escorrega numa rima, quase no automático. “O homem que não mostrava os dentes”, além de um drama de um amor impossível, é também uma aula da cultura gaúcha, sobre os costumes e os dizeres dessa região. O próprio Ricardo é um gaúcho autêntico, que não larga o chimarrão um segundo. E este não seria um dos infindos papéis da literatura? Contar histórias que reafirmem as culturas locais em busca de uma universalidade? O leitor há de reparar que fatos em seu enredo se repetem invariavelmente no nordeste brasileiro e em várias partes do mundo. A gente não vive numa bolha.
Outro conto que se assemelha a uma poesia esteticamente, mas não é, é o que a Sabrina fez, intitulado lindamente de “Lilás”. Aliás, assustou um pouco, pois todos nós ficamos a perguntar: não é nada pessoal, certo? Incrível como sempre caímos nessa malha fina. “Não, não… Só gosto do tema”. E muito justo falar sobre, num país em que o índice de suicídio tem subido bastante entre os jovens. E aqui ela lida de maneira poética e até mesmo cinematográfica, pois você visualiza a cena a partir da riqueza minuciosa dada por Sabrina, sem o discurso panfletário ou taxativo acerca do problema, apenas literário. A moça, antes de se atirar do prédio, apaixona-se pelo rapaz de camiseta lilás, entre a multidão que a encoraja a viver. O conto é composto inteiramente pelo conflito, em que somos atraídos pela força musical de suas palavras. É um rompante.
Thaty, o que dizer de ti, mulher? Será se eu disser que ao ler “Esse ônibus vai pro centro?” a impressão que o leitor vai ter é da proximidade com a sensibilidade da Clarice estarei exagerando? Foi o que nós, durante a oficina, concordamos: um conto intimista. Como uma situação aparentemente simples do dia a dia – esperar um ônibus ou andar nele – é capaz de desencadear tantos questionamentos existenciais? A personagem, aos 44 anos, toma remédio controlado, pensa nos fillhos que não teve e na solidão. E guarda a criança inquisidora que a vida adulta nos mata, já que o conto é composto de perguntas líricas que esbofeteiam o leitor. Thaty, professora como eu, e preocupada com a recepção leitora como eu, talvez não deva se encasquetar tanto com aquilo que Raul Seixas defendia: “não há problema nenhum na obra de arte ser entendida”. Sua escrita é singela, mas nos atravessa como um rio profundo.
E por falar em criança e compreensão, na oficina tivemos uma, de alma velha. A idade mínima da oficina não permitia que Edgar participasse dela, mas sua mãe insistiu. Confesso que preparei em cima da hora alguns contos com uma linguagem mais infantil, especialmente para aproveitamento dele. Todavia, o menino nos surpeendeu acompanhando nossas conversas, fazendo comentários pertinentes, o primeiro a chegar e o último a sair. No seu perfeccionismo construiu “Assassinato no café local”, uma aventura repleta de suspense entre dois amigos espiões, Jack e John. Aliás, vemos uma forte influência do gênero suspense policial em sua escrita, de forma que Sherlock Holmes se orgulharia – eu também, me orgulho. Como não amar o Edgar? Os elementos da narrativa estão todos bem delineados, e os personagens são compostos da euforia e do medo de estarem vivos, lutando bravamente. E imaginar essa maturidade de escrita aos 9 anos…
E para finalizar essa sessão, vou falar do Murilo. Apesar do mais calado da turma, talvez o mais parecido comigo. Isso porque ele desabafou algo que estava latejante dentro de mim: “só o fato de estar ali, lendo literatura por deleite, já é um ganho enorme…” Estamos eu e ele fazendo mestrado. E como é tenebroso se acorrentar numa coisa chamada ABNT, uma verdadeira bruxa aos escritores! Mas a gente tem feitiços contrários também. E mesmo que ela nos envenene, o antídoto é fazer leituras aprazíveis e escrever qualquer coisa que nos faça lembrar de estar vivos. No conto “esfinge” do Murilo, eu fiz uma leitura dessas. Por um momento deixei o Capuccino de lado e me deparei com os irmãos Alberto e Venâncio, em que deixam de esbarrar seus cotovelos em casa para uma jornada na cidade e no seu despertar, depois que “cada coisa perdeu seu par”… É um conto denso, com pouca ação, mas que te leva a um redemoinho psicológico nas estratégias de Murilo ao te fazer enxergar além da ilusão do espelho. Sem dúvidas um conto que possui o seu lugar na literatura contemporânea, mesmo que defendam a atual fratura da linguagem na sociedade pós-moderna, em que a narração cristalizada parece ter perdido seu espaço.
E esse foi um dos grandes debates da oficina: o embate entre a nova literatura e a literatura tida como tradicional; o cânone x nilismo; a reinvenção da linguagem sem ao menos considerá-la em sua perspectiva de conceito e ofício. O façam, mas sabendo o que fazem. E claro que nada do que aqui está finalizou-se. A gente pariu, porém depois vê a cria crescer. Após algum tempo ela pode nos virar as costas, (ou não) e ajudar-nos a amadurecer com o refinamento do aprendizado. E me perdoem por tratá-los pelo primeiro nome. Não achem também que os laços prejudicaram meu julgamento, mesmo que isto não sirva bem à modo de crítica, é mais como uma apresentação. Longe de ser a porta voz, me sinto uma espécie de mãe, como eles o são de seus contos, ou do que foi preciso expulsar por meio deles. Ai, essa conversa toda me dá ânsia inexplicáveis. Vamos parar por aqui, certo? E deixo uma reflexão sobre tudo o que aprendi da oficina pra cá, graças a esse processo de tutoria e saudade:
Viver, de certa forma, é uma corrida na beira do cais para não perder o barco andando. O escritor é aquele pássaro que abandona o navio para assisti-lo se dissipar na imensidão.

Vanessa Teodoro Trajano (Escritora)

Clique nos links abaixo e tenha acesso a todos os textos na íntegra

 

A Imagem, por Murilo Lima Munhoz

Assassino no café local, por Edgar Rampelotti

Esse ônibus vai para o centro?, por Tatiana Nantes Teixeira

Lilás, por Sabrina Antunes Francez

O Homem que não mostrava os dentes, por Ricardo Gerstner

 

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