Assassino no café local, por Edgar Rampelotti

 

cap 1
Entrei no café local junto ao John, sentei-me na mesa mais próxima.
– Está um inferno.
Concordei, o calor era imenso. Então por um momento uma moça de branco, batom vermelho, cabelos azuis e um triste olhar disse:
– O que vão querer, rapazes?
– Duas xícaras de café. Pedi eu pegando a carteira.
– Não, eu pago. Dizia John.
Deixei-o pagar, porque talvez precisasse do dinheiro mais tarde, apesar de não ser muito.
Tomei meu primeiro gole; estava frio, ia chamar alguém, mas John começou a falar do roubo da estátua do parque.
O sol era forte, porém ainda era possível abrir os olhos. O café estava chegando ao fim. De repente, ficou tudo silencioso e comecei olhando os poucos móveis do lugar, queria distrair-me. Meus olhos iam fechando-se lentamente, foi quando decidi pegar meu caderno capa dura de couro. O café acabou, muito amargo por sinal. Comecei escrevendo os últimos crimes, não que precisasse. Durante um bom tempo pensei sem dizer uma palavra. Chamei John e saímos, mas pelo caminho não trocamos uma palavra sequer um ao outro.
Pegamos um taxi e nos dirigimos ao departamento de policia civil. Entramos.
– Jack! – chamou John.
– Sim?
– Esquece – Ele respondeu de um jeito magoado e deprimido.
Esqueci de tudo e abri minha gaveta, peguei a folha com estes dizeres:
“Adolescente morre misteriosamente. Seu corpo foi encontrado na…”
– Jack! – chamou Charles de uma longa distância – Fichas novas.
– Estou indo buscar – Levantei-me da cadeira e fui em direção ao escritório de Charles, peguei de suas mãos: “homem é encontrado morto nas colinas rochosas sem o braço direito”.
– Está bom.
Dei o trabalho a outros detetives mas não deixei de guardar o caso. Me interessei mais pela garota.
O frio agora era muito intenso. Os céus estavam escuros e pesados.
Vi John pela janela fumando um dos últimos cigarros. Seus olhos vermelhos e inchados. Acomodou-se ao banco, esticou suas pernas, pegou em sua bolsa o Whisky. Cuspiu o fumo, abriu a bebida e tomou sem pensar e, talvez, sem nem mesmo apreciar.
Paguei o motorista junto ao John.
– Onde vamos? – ele perguntou tentando forçar um sorriso.
– ”Adolescente morre misteriosamente” – respondi calmamente, mas percebi que o carro estava parando.
– Ei, preste atenção! – Quando vi o homem ao volante estava morto.
– Meu Deus!!! – Fiquei apavorado.
– O que vamos fazer? Vamos morrer???
John empurrou o homem e o substituiu. Estávamos indo em direção ao mar, as buzinas estavam em toda parte, já era o terceiro carro que batíamos: os vidros já tinham quebrado, eu estava sangrando tanto quanto John, não íamos conseguir curvar o carro e impedir que fosse em direção à água. Tínhamos que pular. Tive a impressão de que John queria chorar, mas de qualquer jeito era nossa única opção. Pequei-o pela gola de sua camisa e o puxei para o banco detrás; nos preparamos e assim nos jogamos para fora do carro. Comecei a rolar, também pude ver John de uma curta distância, estava coberto por sangue e nem pude imaginar como eu deveria estar.
Começara a chover. As gotas da chuva caíram sob minha pele, a ardência era insuportável. À minha frente pude ver o corpo do motorista, agora morto para sempre. Pude levantar-me e ir em direção ao John.
– Jack…Jack! – ele me chamou com uma voz abafada.
– Jo… – não consegui nem responder.
Os pássaros cantavam belamente; um calafrio passara por mim, meus pêlos arrepiaram-se, comecei a chorar sem rumo. Com certeza John já teria morrido, então, ouvi o som da ambulância.
Acordei em uma maca ao lado de John.
“Mas que diabos está acontecendo?” Pensei eu. Pude ver que John estava acordado junto a mim. Vi que olhara em meus olhos profundamente, fiquei feliz que ainda estivesse vivo.
Havia uma enfermeira sentada ao meu lado então ela disse certamente assim:
– Olá! Me chame de Dra. Molly.
– Olá – foi o que pude falar – John está bem?
– Sim, só quebrou o braço e um grande corte na cabeça.
– Ótimo – Respondi fechando os olhos.

cap 2
Três meses depois…
Abri minha gaveta e peguei as fichas com estes dizeres: “adolescente morre misteriosamente”. Levantei-me, chamei John e pegamos um taxi. O local do crime era um hotel, fiquei surpreso com o quão belo era; as decorações nas paredes marfim, o tapete vermelho no chão iluminado pelos lustres de cristal e as poucas velas.
Comecei olhando os quartos e depois conhecendo pessoas, não encontrei nenhuma evidência. Olhei no papel de novo “nome: Carol Rafaela Fraga, idade 18 anos, assassinada misteriosamente”. Dobrei a folha e a coloquei no bolso. Peguei as chaves 214, 215 e assim subimos pelo elevador. Os corredores eram estreitos e limpos, as portas vermelhas e grossas, havia um extintor ao lado. Enfim, chegamos em nossos quartos.
Eram 5:33 da tarde. John estava dormindo e eu olhando as paredes desorientadamente. Tomei mais um gole de café e então a campainha tocou. Abri a porta, ali estava uma mulher.
– Oi, me chamo Jane – disse ela com um lindo sorriso.
– Oi, sou Jack.
– Você é novo aqui, não?
– Sim.
Houve um silêncio por um minuto.
– Foi bom conhecer você.
Aquela deve ter sido a menor conversa que já tive. Fiquei pensando nisso enquanto ela acenava um sinal de adeus.
Fechei minha porta, larguei a xícara na pia e fui dormir. Apaguei as luzes do quarto e acomodei-me na cama, foi quando ouvi um barulho muito alto. levantei depressa e fui ver o que era. Vesti-me e saí. De longe pude ver John anotando em seu caderno de trabalho. Aproximei-me do corpo exposto no chão com talvez quinze pessoas ao redor. A moça estava morta com uma perfuração de tiro na cabeça. Ao lado dela a garota que conhecera mais cedo. Olhei atentamente em seus olhos. Depois coloquei a mão nos ombros de John e disse-lhe no ouvido: “mais uma para lista de assassinados misteriosamente.”
Convidei John para entrar e conversarmos mais. Sentamos no sofá.
– Acho que devemos esquecer e focar na garota, disse John.
– Não concordo muito. Talvez precisássemos saber mais sobre a mulher.
– Talvez.
– Vamos continuar onde estávamos – finalizei a conversa.
Fomos todos para cama, era incrível como não tinha dormido aquela noite.
O sol nascia entre os morros, o mar estava calmo. Levantei-me da cama e fui falar com John e o chamei para tomarmos café. Agora estávamos numa mesa comendo biscoitos (quietos).
Depois do café fomos investigar mais o hotel. Consegui encontrar sangue nas paredes, levei para fazer uma amostra. O sangue era da garota.
Peguei a última garrafa de Jack Daniels e comecei a beber com John. Pegamos nossos cadernos e começamos a anotar tudo, mas ouvi o som da campainha. Fui ver, era Jane nos convidando para entrar. Pegamos a bebida e levamos até lá, servimos em uma taça antiga minha. Começamos a olhar um para o outro, sem rumo, até meu telefone tocar.
– Com licença.
– Oi, quem é?
– Sou eu, agente Davis. sua esposa foi encontrada morta.
– Isto é um trote, Davis???
– Não, senhor. Venha para cá imediatamente.
Sem pensar, levantei-me da cadeira e chamei John que teria ouvido a conversa. Saí correndo do hotel e peguei o primeiro táxi que passava.
– Davis, onde devo ir?
– Em sua casa, senhor.
Passei o endereço ao homem e disse para se apressar.
Quando cheguei pude ver todos os parentes e vizinhos por perto. Meus olhos estavam inchados de tanto chorar.
– Emily! – gritei ao pressentir que a veria realmente morta – Emily!!! – Gritei novamente, agora vendo seu corpo morto no chão. Todos estavam chorando e eu não podia acreditar no que via.
Chegou o dia do velório e todos estavam reunidos ao redor do caixão. Todos com seus guarda-chuvas, não acreditavam naquela cena. Se sentiam mortos mas não tanto quanto eu.
Voltamos ao hotel. Deitei em minha cama e adormeci.
Chegou o dia em que a neve veio. Às nove horas da manhã enormes bolas de neve surgiram no céu dominando os jardins e emperrando as portas. As quatro da tarde um caminhão removedor de neve estava por lá. O frio de dezembro deixava todos assoando seus narizes.
Ouvi a campainha tocar, sentindo brotar o desespero.
– Sou eu, Jane. como você está?
– Vá embora – falei de um jeito sonolento.
– Desculpe por sua perda
– Conversamos depois.
– Até mais.

Assim, ele começou sua nova vida. Levantou-se e suspirou profundamente. Sua alma estava destruída, sua mente totalmente vazia, seu corpo leve como de uma pena. Suspirou de novo e assim caiu sob o colchão e voltou a dormir. Piscou, sentiu uma lágrima escorrer; sua boca estava seca e rachada. A lágrima descia e parava em seus lábios. Seu primeiro pensamento ao acordar foi escuro, o mais profundo escuro. Puxou o cobertor e cobriu seu rosto, espremeu seus olhos e deixou mais uma lágrima cair. A última, pois, passado o luto, descobriria quem matou sua esposa, e trataria sem dúvidas de se vingar. Ali era só o começo, ou melhor, o recomeço, onde “mulher morre misteriosamente” se tratava agora de uma questão pessoal.