Castanho, por Sabrinna Alento

 

Chove. E com a palma molhada da mão tento proteger a faísca do isqueiro para acender um cigarro amassado. Mas chovechovechove e são quase onze da noite, passou a hora do rush e dos carros passarem sem parar, semáforo-piscando-atravessar-na-faixa-parar-do-outro-lado-da-rua-observar-no-outdoor-a-propaganda-de-lingerie-com-a-atriz-da-novela-das-nove-e-atravessar-de-novo-na-faixa-entrando-na-farmácia-para-comprar-uma-cerveja. Mas nem o cigarro acende e nem pode fumar em lugar fechado, tampouco na farmácia, onde não vende cerveja. Só suco de laranja e lembranças ginasiais. No posto vende cerveja e pode fumar e, imagina só! Imagina só como seria aproximar a mão com a ponta do cigarro acesa pra pagar o frentista que abastece um carro e mandar tudo para os ares? Buenos Aires esses que findam o para sempre do nunca mais. Mas são quase onze horas, faz frio, o cigarro não acende, o semáforo pisca, e chove ininterruptamente e o posto está a sete quadras de distância ao norte que não tenho enquanto

Noutro lugar, cama feita, prato feito, trato feito. Uma camisa de muito tempo atrás que fosse vestida simbolicamente nas noites amenas, nas noites claras ou em claro, sem que o teu marido desconfiasse da história por trás e por debaixo e por entre as fibras daquele xadrez da primeira vez que desabotoaste meus botões e fizeste brotar uma florzinha amarelada de fundo de quintal, tão simples no macro.Ai se me cativasses como à rosa, ai se essa camisa não se desfizesse nunca em lembrança, farrapo, pano de chão, forro para que o cachorrinho ganho da cunhada dormisse sobre, e que houvesse um odor, agradável ou não, guardado no teu sistema límbico. Um vestígio de cicatriz na ponta do indicador, ao pé da letra mais feliz, furou um dedo e fez um pacto comigo quando me confiava e me queria e me acreditava e me julgava clean. E continuas limpa como os pratos pretos quadrados depois de lavares as louças da janta, enquanto

no meu lado a cidade
chove e passam de onze horas e faz frrrrrrrrrrio e o cigarro não acende e o semáforo pisca e o posto continua a sete quadras de distância e um carro passa numa poça d’água e joga lama na minha lama e enlameia minh’alma com uma música que fica cada vez mais distante e eu lembro que havia guardado esse disco embaixo de todos os outros para

o dia que tu me visses, mas tu apenas viestes, e afundada que estava no insondável de teus silêncios e surpresas, esqueci de ligar a vitrola, deixei a sonoplastia por conta do farfalhar da minha mão entre teus longos cabelos que são da cor da tempestade que chega que é da cor dos teus olhos. Castanhos. E lembrei que mais que acender o cigarro, vestir uma roupa seca ou beber uma cerveja ou quem sabe um café – pois, como eu disse, está frio -, eu queria te mostrar o tal disco, a tal faixa e, fixa no lugar predestinado da cama, saber que chegou uma correspondência na tua casa, e que um dia tu já me correspondeste. Te enviar o disco que me remete lembranças de meados de dezembro, frases feitas, feias e perdidas no espaço-tempo, no pouco e espaço e tempo de uma fuga no meio da semana. Ah, meus meios romantismos, meus meios clichês, minha completíssima vontade de atravessar a cidade ao teu encontro, quando nem ao menos atravesso a rua, quando nem ao menos tenho coragem de me exibir nua ao que exigi

E por isso estou na chuva às inexatas mais-de-onze-da-noite e a porra do cigarro não acende e o semáforo pisca – mas que merda esse prefeito não faz nada nessa cidade! Essa farmácia estúpida só vende suquinho! Cadê a droga da cerveja e por que a bosta desse posto é tão longe se eu

Busco abrigo nas emboscadas que me corroem, no chiaroscuro da memória enfraquecida/enternecida/enferma. Inferno marcado a ferro na pele ressecada. Deporta-me, amor, da Finlândia, canta Paul, toca Raul, diz que também todo jornal que lês diz que já éramos, que não é mais primavera, oh baby, diz que ainda nem começamos.

Vou só.

Sabrinna Alento Mourão (Escritora)

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