Do que é feito o agora…, por Ana Paula Almeida

 

Há muito tempo tento elaborar uns sentimentos que vagueiam por dentro de mim.

Há muito tempo tento nomear sentidos, conversar com eles de modo que sejamos bons amigos, já que pretendem ficar.

Há muito tempo tenho exercitado a complacência de me escutar, mas sofro de verborragia e ora é cansativo, ora é angustiante, ora é mais que preciso e nem sempre dá.

Há muito tempo a escrita deixou de ser essa conversa íntima e a cada dia, retomá-la é sempre um novo recomeçar, reencontrar, reconectar.

Sempre foi prazeroso no auge da exaustão, enxugar as lágrimas ou deixar que rolassem olho à fora enquanto o texto tomava (o) corpo. Sempre foi reconfortante terminá-lo e me ver entre as palavras, constatar que eu era muito mais que apenas dor. Sempre foi uma experiência máster, quase mística, onde, numa alquimia dessas que a vida possibilita, eu encontrava com o meu incômodo e a escrita falava dele para mim e eu o entendia melhor do quem só o sente.

Hoje, diferente de como era há muito tempo, sinto que me faltam às palavras, talvez porque a hora agora seja de silêncios ou porque teorizei coisas que só são de sentir. Sinto-me consumida de um tempo que não foi gasto essencialmente. Sinto-me gasta como se a velhice tivesse se apoderado dos meus dias de modo que sou hoje o cansaço do que anseio e não vivi. Sinto-me acordando de um coma, abandonando a caverna (d)e Platão.

Tudo hoje é poeira do ontem e é árduo o trabalho de livrar-se dela para aliviar os ares, para respirar melhor.

Talvez isso seja um passo ao encontro do autocuidado, talvez isso seja só um dia diferente e amanhã tudo volte a ser como está. Mas isso é o que eu posso me permitir dentro das minhas lamentações, é o que eu posso fazer hoje dentro das minhas limitações.

 

Ana Paula Almeida (Escritora)

Design by Freepik