Epílogos, Por Paulo Narley.

Havia muito a ser dito. Ninguém nunca tinha lhe contado sobre todos os erros que poderiam ser cometidos numa tentativa falha de se encontrar. Caminhava por entre os problemas e os mesmos erros o perseguiam. Queria voltar para casa, mas a casa era agora apenas um lugar longe, escuro, perdido e sem vida.
Abriu seus olhos e viu a imensidão lá fora. Tentava encontrar todas as razões, mas muito havia ficado para trás. Ele queria pertencer, queria ser parte. Porém, muitos pedaços seus haviam ficado pelo caminho. Muitos espinhos cortaram sua pele morena e marcaram suas feições. Um rio corria por seu rosto magro. De sangue ou lágrimas? Não sabia dizer. Na verdade, não se importava.
Estava caindo, e não havia como parar, enquanto o mundo desabava dentro de si e o levava ainda mais para o fundo. Jogara todos os jogos e agora não havia mais como retornar.
Ele queria voltar para casa, mas ninguém mais estava em casa. Não existia mais lugar algum para onde ir. Perdido. Sozinho aqui fora. Seu peito e seu vazio eram suas únicas moradas, os únicos lugares que restaram.
Ninguém nunca disse, mas o mundo é cruel. Ele tinha se partido em mil, todos errados. E não sabia mais onde pertencer. Travesseiro nenhum era descanso para si. Todos os monstros lá de fora estavam dentro dele e o apertavam e o espremiam e faziam dele nada mais do que um corpo inerte, sem sentimentos.
Ele queria ir para casa, mas não havia lar, não havia braços que o acolhessem nem teto que o protegesse da chuva densa que caía do céu tão pesado. Ele perdera seu rosto no meio do caminho.
Não queria mais se sentir perdido, mas haveria lugar onde repousar seu peito cansado? Haveria como recuperar aquilo que fora tirado dele? Haveria sonhos? Haveria?
Chegaria a algum lugar ou seria apenas rei de um país das maravilhas que nunca existiu? Encontraria a si mesmo de algum modo ou permaneceria correndo dos relógios? De repente, viu a Lebre de Março correr à sua frente. Droga, aquilo era real ou a insanidade havia finalmente tomado conta dele?
Resolveu que iria se libertar de tudo o que não foi dito e de todas as memórias que o trancavam dentro de si e o prendiam à vontade de voltar para casa.
Deu meia-volta. Deixou a Lebre e todas as outras coisas para trás. Não mais perseguiria uma realidade que há muito não lhe pertencia. Continuava se sentindo sozinho por dentro e, talvez, assim fosse melhor.
Ele agora seria todas as coisas que bastavam para si.

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