Esse ônibus vai para o centro?, por Tatiana Nantes Teixeira

 

“Esse ônibus vai pro centro? ” Perguntou-me a mulher. Já não lembrava mais quantas vezes ouvira isso. Eu devo ter cara de balcão de informações. Pra uma festa ninguém me convida. Mas pra pedir informação…
“Não, senhora. Esse vai pro Rio Doce. ”
“Que horas tem pro centro? ”
“Daqui a meia hora, mais ou menos…”
E lá se foi a esquisita… nem me agradeceu. Não faria diferença se agradecesse.
Antes que pudesse aparecer mais uma pergunta, o meu ônibus parou. “Meu ônibus…” Que expressão estranha!
O bom de pegar ônibus que dá voltas e voltas pela cidade é o tempo pra pensar…
Pensar no quê? Em quem? Há quanto tempo eu faço esse trajeto? O máximo que acontece é um pedido de informação.
Na novela não é assim… Na novela um homem lindo esbarra na desajeitada, a bolsa dela cai, as coisas se espalham, ele a ajuda… e já estão apaixonados.
Eu pego esse ônibus todo dia.… Cadê esse homem lindo? Eu faço essa pergunta há quatro anos pro Dr. Slomp e ele não responde. Ele sempre me devolve a pergunta, usa esses métodos, técnicas, sei lá. Eu pago uma fortuna para não ter resposta e o motorista tá demorando demais nesse semáforo. Será que é acidente?
Acidente vai acontecer comigo se eu não comprar o remédio. Só tem uma cartela. Melhor prevenir. Tenho que procurar no google o que significa “escitalopram”. Eu não sei o que eu tô engolindo. O Dr. Slomp disse que vai me fazer bem…
Não foi acidente. Foi um grupo de crianças atravessando a rua.
Toda vez que eu vejo criança eu lembro da Débora. Em pouco tempo ela vai ter a quarta. Tem 24 anos e vai pra quarta criança. Eu devo completar 44 no mês que vem e não tenho nenhuma. Devo, porque nunca se sabe o dia de amanhã, como dizem por aí.
A Alice tem dois, a Bruna vai ter o primeiro, a Sandra tem uma menina, blá, blá, blá.
Essa rua eu não conheço. Vai ver tem alguma obra e o motorista teve que desviar. Que horas chego em casa hoje?
Hoje eu esqueci, mas quando demora muito, eu gosto de ler um livro durante o trajeto.
“SEX SHOP PIMENTA DOCE”. Nunca percebi que no caminho tinha um sex shop e nunca entrei em um… Como será? Nem vou fechar os olhos pra não pensar. Vou olhar para um ponto fixo até chegar a hora de descer.
Afff! Cheguei no ponto. Pareceu uma eternidade. Tô descendo.
Toda vez que eu chego em casa eu lembro de uma música do Roberto Carlos: “Eu cheguei em frente ao portão/meu cachorro me sorriu latindo…” Mas eu não tenho cachorro nem abandonei a casa como o Rei dá a entender. Eu acho que essa coisa de chegar cansada, sonhar muito e abrir portão que me faz lembrar da música.
Ainda dá tempo de pegar um pedaço da MUROS DE FOGO. Adoro novela mexicana! Hoje a Maria Cálita vai revelar pro Vitor Manuel que está grávida. Tô doida pra ver essa cena.
E a Maria vai descobrir que é filha do patrão. Vai ficar rica assim, de uma hora pra outra.
Tem dias que eu queria ser Maria Cálita, ter um Vitor Manuel e ser herdeira de uma fabulosa fortuna, sem fazer esforço.
Ah, melhor fazer um lanchinho e dormir. Amanhã tenho que acordar cedo pra não perder o ônibus e ter de ficar ouvindo perguntinha besta.
E se eu comprar um carro?

Julho de 2017
Itajaí – SC