Graves, Por Frida Abrão.

Não é difícil imaginar a confusão que se passava em sua cabeça. Imagine-se num barco, à noite, no meio do oceano. Imagine-se desprovido de qualquer roupa e o frio que sentiria. Era exatamente assim que ele se via.

Sentir-se sozinho tornara-se comum com o passar do tempo, embora a dor que isso causava continuasse a aumentar a cada dia. Há meses não via seus pais. Seus amigos mantinham-se ocupados em novos projetos e empregos, em festas de casamento e formaturas. Até seu cachorro havia perdido o hábito de dormir no ângulo que se formava atrás de suas pernas quando ele as dobrava na falha tentativa de encontrar uma posição confortável o suficiente para que suas noites de sono (cada vez mais raras) pudessem chegar com rapidez e livrá-lo do fardo de mais um dia vivido sem qualquer expectativa de melhoras.

Há muito tempo não recebia uma ligação e seu celular havia se tornado um mero reprodutor de músicas. A lista resumia-se a algumas poucas canções (de no mínimo duas décadas atrás) que, no fim, já não passavam de barulho ininteligível onde letra e ritmo não faziam qualquer diferença. Eram os graves que prendiam sua atenção. Gostava de tentar sincronizar as batidas do seu coração de acordo com os sons que ouvia. Achava que, assim, poderia tornar-se um com a música e perder-se em ondas viajando pelo ar. Pelo menos era isso que ele desejava.

Seu percurso limitava-se entre seu quarto e a sala, onde havia a poltrona de couro marrom que ele tanto apreciava. Seu passatempo preferido era tomar uma xícara de café sentado na sua poltrona enquanto fumava um cigarro.

Os cigarros eram seus amigos, na verdade. Fumar era sua tentativa desesperada de se comunicar com alguém, quem sabe até consigo mesmo. Quando o silêncio decidia gritar muito alto ele não hesitava, já havia se tornado automático: buscava rapidamente um cigarro no maço amassado que ficava sempre ao lado da TV e acomoda-se na poltrona, encarando um ponto invisível no meio do carpete da sala e concentrando-se nos graves que tocavam nos seus fones de ouvido.

Sua vida era um eterno domingo chuvoso.

Ele preferiu desistir de tentar. Não tinha mais forças sequer para falar. Sua voz havia se calado há muito tempo e talvez nem lembrasse mais como soava. As correspondências há meses não eram abertas e as plantas que ficavam na janela, embora ainda vivas, causariam pena a qualquer um que as visse.

Após uma noite mal dormida (ou uma noite não dormida, se assim preferirem), após ele ter-se perdido em seus próprios pensamentos abstratos e rabiscos num bloquinho de papel e após alguns comprimidos a menos no armário do banheiro, os graves dos seus fones de ouvido foram interrompidos e, pela primeira vez em um espaço de tempo quase incontável, seu celular estava recebendo uma ligação – que ele nunca pôde atender.

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