Lilás, por Sabrina Antunes Francez

 

Sempre deixei para as próximas primaveras.
Mas nessa fiz até dieta inspirada nas fotos dos sites de falsos noticiários.
A hora perfeita é quando as crianças estão na escola e os idosos dormindo.
Meu coração bate tão forte que tenho medo de desequilíbriar e cair sem estar preparada.
Vejo um homem de camiseta lilás; sua voz fica abafada entre os encorajamentos de terceiros e esganiça algo como: “A vida é bela!”
Não é porque eu tenha preguiça de descer as escadas e limpar suas lágrimas que eu não ache a vida bela; reconheço suas belezas, mas possuo um estranho fascínio em desejar conhecer as da morte. Minha mãe diz que papai não morreu foi pro céu e virou anjo, acho graça dessa história.
O barulho do corpo caindo ao chão é único.
Em quatro segundos estarei tão perto da árvore mais bonita do bairro… A calçada combinará com o tom dos meus cabelos, e em mim o banho da minha cor predileta: o vermelho.
Gostei do moço da camisa lilás. Vou pular sem gritar para que minha voz não ecoe em seus ouvidos ao dormir.
Mas nós sabemos que se ele tentar subir no primeiro degrau do segundo andar ja terá fotos minhas em grupo de WhatsApp.
Percebo agora que sua camisa tem pingos mais escuros de lilás. Começo a sorrir por achar lindas aquelas lágrimas do moço que também me sorri.
E pulo em cheio para os seus braços.