Macunaíma, Simplício Dias e a Pedra do Sal, por Pedro Hoffman.

Macunaíma, herói de nossa gente, nascido no fundo do mato-virgem, no seio da tribo Tapanhumas, às margens do Uraricoera, era uma criança feia, tão feia que diminuiu o tamanho do dia, e o silêncio foi tão grande que só se ouvia o rugido do Uraricoera, saudando a criança chamada Macunaíma.
Passou mais de seis anos sem falar. Quando falou, só sabia dizer “Ai! que preguiça”, e nada mais se ouvia. Num dia em que deram a ele água de chocalho, principiou falando e não parou mais. Passava os dias trepado no jirau de pixaúba, observando o trabalho dos manos Maanape e Jiguê. Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem. Sua feita preferida era decepar cabeça e saúva e banhar nu no rio com a família, porque passava o tempo mergulhando e passando a mão nas graças das cunhatãs, que se afastavam gritando gozado. Macunaíma, o herói, dizia que eram os guaimuns que habitavam no rio e queriam entrar pelos buracos das moças para habitarem no corpo delas. As mulheres da tribo diziam que “espinho que pinica, de pequeno já traz ponta”.
Quando queria passear no mato, chamava Sofará, que era bem moça e companheira do mano Jiguê, e os dois brincavam no mato e depois ficavam rindo um para o outro. Já cansados de tanto brincar, Sofará botou o herói nas costas e principiou andando. Nem bem distanciou o passo, cansou de carregar Macunaíma e o colocou no chão. Porém, assim que deitou o piá nas tiriricas, tajás e trapoerabas da serrapilheira, o herói, num átimo, ganhou corpo e ficou um príncipe lindo, loiro e com olhos azuis. Voltaram outras vezes e brincaram por lá muito, depois ficavam catando os carrapatos um do outro. Jiguê nem desconfiava, pois era bobo.
Tempos depois, Macunaíma, o herói, casou com Ci, Mãe do Mato. A cunhã era linda com o corpo chupado pelas carapanãs, colorido com jenipapo. Quando Macunaíma brincou com Ci pela primeira vez, vieram então muitas jandaias, muitas araras vermelhas, tuins, coricas periquitos, muitos papagaios saudar Macunaíma, o novo Imperador do Mato-Virgem. O herói imperou sobre os matos misteriosos dos cerros da Venezuela, enquanto a Mãe do Mato comandava as mulheres guerreiras empunhando txaras de três pontas.
Nem bem seis meses se passaram após o casamento e Ci pariu um filho de cabeça chata. Mas uma noite a ave rasga-mortalha pousou na maloca onde dormiam Macunaíma, Ci, Jiguê, Maanape e a criança para agourar a sorte de todos. A rasga-mortalha soltou um grito rasgado tão sombrio que Macunaíma estremeceu, pois sabia que quando a ave rasga-mortalha rasgava seu grito em riba duma maloca era porque alguém de lá iria morrer. Não deu outra feita. Dois dias depois o piá morreu e Macunaíma ficou inconsolável, pois a cria era fruto do primeiro amor verdadeiro do herói por uma cunhã. Macunaíma chorou que mais chorou, foi tanto o choro de Macunaíma que toda a floresta e todo o céu choraram com ele, escurecendo o tempo e caindo uma chuva fria, que lavou o corpo do piá e tirou os carrapatos, pulgas, formigas e carapanãs.
Maanape, vendo que o choro do mano era infinito, virou o corpo do menino numa pedra muiraquitã e deu a Macunaíma. Maanape era feiticeiro. Assim, o herói poderia andar sempre com o corpo de seu filho junto de seu peito. Macunaíma tratou logo de catar um cipó e fazer um colar para pendurar a pedra muiraquitã, corpo de sua cria com Ci, Mãe do Mato.
Uma feita em que Macunaíma caçava uma anta para levar até a cabana e comer com os manos e Ci, cruzou caminho com o monstro Piririguá, que queria comer o herói. Piririguá era comedor de índio e tinha na cabeça muitos espinhos. Por isso hoje é que se diz que menino que faz topete nos cabelos fica parecendo um piririguá.
Macunaíma tratou logo de empreitar carreira para não virar comida do monstro. Correu que mais correu, cruzando os estados do Amazonas e Pará. O monstro vinha que vinha no rastro do herói, babando lodo. A carreira de Macunaíma continuou e ele cruzou os estados de Tocantins e Maranhão, já muito fatigado. Olhou para trás e o monstro Piririguá na cola de Macunaíma. Foi aí que o herói se lembrou de virar num pé de saratimbá que afasta Piririguá, e assim fez. Quando o herói virou no pé de saratimbá que afasta Piririguá, a muiraquitã sacou do colar e caiu no chão, longe da planta que era Macunaíma disfarçado. O monstro se aproximou e não viu mais o rastro do herói, mas encontrou a muiraquitã, catou e atirou longe, há léguas e léguas de distância. Como deu vista do pé de saratimbá que afasta piririguá, o monstro saiu jogando praga em Macunaíma.
Após voltar a ser gente, Macunaíma deu por falta da muiraquitã e gritou alto, balançando as folhas dos ipês e eucaliptos e assustando papagaios, periquitos, tucanos, jandaias, tuins, uirapurus, todas essas aves. No Amazonas, Ci e os manos ouviram o grito do herói e embrenharam no mato numa carreira medonha seguindo o grito de Macunaíma. Alcançaram o herói chorando no Maranhão porque havia perdido a muiraquitã, que era o corpo de seu filho. Após contar o ocorrido, os outros se sarapantaram com o fato e consolaram o herói. Maanape, então, virou uma flor de ipê numa lacraia muito sábia e vidente, que contou a Macunaíma que sua muiraquitã preciosa havia parado nas terras o Piauhy, nas mãos de um rico fazendeiro de nome Simplício Dias da Silva, no lugar Villa de São João da Parnahyba. Maanape era feiticeiro.
Após saber o paradeiro de sua pedra muiraquitã, Macunaíma seguiu com Ci e deixou os manos Maanape e Jiguê para trás, que voltaram para a beira do Uraricoera. Ci e o heroí correram léguas e léguas até as terras do lugar chamado Vila de São João da Parnahyba, no Piauhy. Macunaíma jurou a Ci que recuperaria a muiraquitã a qualquer feita e procurou informações sobre o tal Simplício. Ao chegar na Rua Grande, o herói avistou um enorme casarão, o maior e mais bonito da Parnahyba. Como o fazendeiro achador de muiraquitã era muito rico, Macunaíma logo desconfiou que aquela poderia ser a casa do tal Simplício. Procurou se informar pelas redondezas e confirmou sua suspeita. Aquela era mesmo a casa onde estava sua muiraquitã, que era seu filho.
A feita que se sucedeu foi que o herói bateu na porta da casa grande e chamou o fazendeiro. Quando ele apareceu, Macunaíma se sarapantou, porque o homem era invocado e disse que já sabia que o herói tentaria reaver a muiraquitã, pois havia sido informado por uma piaba muito simpática e vidente que pulou fora do Igaraçu e caiu em sua casa, contando tudo sobre o herói e também a história da pedra muiraquitã de Macunaíma. Ao ouvir a fala de Simplício, o herói pensou que ele fosse devolver a pedra, mas ele disse a Macunaíma que não devolveria, não, e que se herói não fosse embora, mataria ele de coque na cabeça até fazer galo. Macunaíma disse que iria recuperar sua muiraquitã e que queria briga, por isso deu o primeiro coque no coco do fazendeiro, que exclamou “Ai, diacho!” e ficou furioso.
Macunaíma aproveitou a situação e deu um puxão na pedra muiraquitã, que estava pendurada no pescoço do fazendeiro com um colar muito bonito de ouro. O herói arrancou a pedra e empreitou na carreira, nadando pelo Igaraçu e chegando do outro lado, por entre as carnaúbas. O fazendeiro vinha que vinha na cola do herói, com a cabeça pendendo para um lado por causa do peso do galo feito pelo coque dado por Macunaíma. Os dois correram que mais correram e Simplício Dias sempre na cola do herói, bufando de raiva. O medo de Macunaíma foi tão grande que não percebeu que Ci também corria ao lado dele. Cia era a Mãe do Mato.
Correram tanto que deram numa enorme faixa de areia bem alva, com uma ventania danada de forte. No caminho, Simplício Dias da Silva arrancou do chão uma carnaúba inteira e atirou na direção do herói, que foi atingido bem no espinhaço e rolou no chão, exclamando “Ui, minhas costas!”.
Cansado de correr, Macunaíma resolveu enfrentar o fazendeiro e esperou que ele se aproximasse. A pedra muiraquitã já estava de novo no pescoço do herói, amarrada por um trançado de palha de carnaúba que Ci fez enquanto corria. Enquanto o inimigo se aproximava, Macunaíma pegou a carnaúba que o fazendeiro havia jogado nele, fez uma ponta e estava preparado para furar bucho. Não precisou, pois Quando Simplício Dias se aproximou, a pedra muiraquitã se desprendeu do colo de Macunaíma e ficou num brilho tão intenso que cegou o fazendeiro e fez com que ele topasse numa pedra que havia na areia e caísse bem em cima da lança de carnaúba feita pelo herói.
Macunaíma se sarapantou com aquela feita da muiraquitã e correu para o outro lado, se separando de Ci. Com o brilho da muiraquitã, uma chuva de enormes pedras cinzas começou a cair do céu e cobrir uma parte da extensa faixa de areia. As pedras eram tão grandes que Macunaíma, o herói, pensou que eram os planetas e as estrelas que estavam descendo para ajudá-lo a derrotar o fazendeiro Simplício Dias ladrão de muiraquitã dos outros. Mas ele já estava estendido debaixo de alguma pedra gigante. Uma delas também caiu sobre Macunaíma e outra sobre Ci.
Debaixo das pedras, já bastante moído e só pensando numa rede, Macunaíma só conseguia ver a muiraquitã ainda brilhando na areia e percebeu que seu corpo também brilhava e se desfazia. O herói ficou admirado. Então, Macunaíma e Ci viraram em enormes águas salgadas que passaram a banhar a areia branca onde estavam e o lugar se transformou numa bela praia, cercada pelas pedras gigantes que caíram do céu com a magia da muiraquitã que era o filho de Macunaíma.
De um lado, Ci, tranquila, pra lá e pra cá com sua calmaria e suas ondas mansas sabendo que Macunaíma, o herói, vingou o roubo da muiraquitã que era seu filho e que agora os dois, Ci e o herói, eram águas que seriam habitadas por muitos peixes. Ci era o lado manso da praia, com águas calmas.
Do outro lado, Macunaíma, bravo, com suas águas agitadas pra lá e pra cá, com suas ondas gigantes e furiosas batendo sem dó nas pedras cinzas sobre o corpo de Simplício Dias, ainda não satisfeito do coque lhe dera no quengo e do tombo que a muiraquitã fez ele levar sobre a ponta do tronco de carnaúba. Batia que mais batia, com força, que as águas chegavam a banhar as pedras, como que quisesse bater mais no fazendeiro. Macunaíma era o lado bravo da praia. Por isso que se diz, hoje, que esta praia tem um lado manso e um lado bravo.
Desta feita é que surgiu a praia da Pedra do Sal.

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