Na ponta dos pés, Por Ana Karynne Belchior.

Era uma tarde ensolarada. O sol bastante forte, típico da região em que moro, aquecia a cidade. Ele não era um empecilho. Não para minha irmã. Naquele dia e em todos os outros ela me acomodou na garupa de sua bicicleta e me levou para minha aula de balé. Muito menos para mim, que amava observar cada cantinho em que passávamos pelo caminho, principalmente todas aquelas pessoas e seus trejeitos. A cada pedalada me sentia mais animada. Era o sinal de que estávamos cada vez mais perto da chegada.

Entrando naquela imensa sala (sim, para mim era imensa), podia sentir as melhores sensações do mundo. Ah, o balé! Naquele espelho enorme que me cercava, conseguia ver o reflexo de uma grande bailarina deslizando e saltando pelo chão de madeira que soava de forma tão peculiar. Sem contar aquela barra longa e firme na qual apoiava meu corpo, mas, sobretudo, meus singelos sonhos. Sentia-me a flutuar pelo salão com o toque da melodia ao fundo. Era o meu lugar preferido em todo o mundo, sem nem ao menos ter conhecido qualquer outro.

Entretanto, em um dia incomum e nublado, a minha querida sorte resolveu sumir como fumaça. A escola fechou as portas. E com elas, o meu então desejo. Não consegui compreender. As coisas não eram tão simples como eu imaginava que fossem. E ali, fiquei sem entender o que isso significaria para mim. Com o tempo, as circunstâncias, os medos, as inseguranças, as responsabilidades e as preocupações começaram a surgir sem sequer avisar. Indefesa, precisei firmar os pés no chão e aprender a ser forte. Já não sou mais tão pequena, tampouco bailarina. Porém, os sonhos de menina despertados naqueles poucos momentos ainda permanecem vivos, mesmo que adormecidos pelo tempo… E quem sabe por isso, talvez um dia eu volte a ficar na ponta dos pés e veja o mundo com aqueles mesmos olhos outra vez.