Noite Estelar, por Flávia Valois.

O mundo tem várias noites estreladas, e aquela que o Van Gogh inventou.
O Ferreira Gullar sabia que não é por arrogância ou joguinho, “ainda” existirem pessoas dispostas a observar o observador – e a sua meditação humana cheia de imperfeições – ao tentar achar algo parecido com a sintonia: de não ‘ter’ no ser, só uma noite comum e cômoda, mas fazê-la acontecer com requintes de essência artística, de saber o que se faz, por que se faz e com quem se faz essa tal ligação em tocar e trocar conhecimento e coração com o outro, e, para qual fim.
Pra respirar aliviado? Rubem Fonseca fala sobre secreções, expressões e desatinos, mas o que realmente me intriga é nunca ter lido alguém descrever, verdadeiros alívios mentais críveis sem pudores e sem mesmices!
Corpo, alma e espírito, formando a pirâmide interior que procura encaixar-se na forma ligeira ou calma, (como na época inocente dos jardins do saber, onde aprendíamos a colocar a peça certa no lugar certo), o resultado então seria harmonia?
Sim, porém, porque o desigual, o que não encaixa é o que incomoda e inspira muito mais?
Acho que é por isso que a Arte existe, pra fazer da nossa realidade conjunta – e ao mesmo tempo pobre e tantas vezes miserável de percepção mais intensa de sentimentos autênticos e semelhantes – onde os opostos deveriam vir dispostos com maior riqueza em detalhes e, possível de nos bagunçar da forma mais gostosa!
Ansiosos, ávidos por derrapar-se, cair descalço, machucar-se e no fim, estar feliz com o pesar dos pesares das mais malucas escolhas. A alma pede pra deixar de lado o barulho, pede pro silêncio do orgulho se deitar, e assim se deixar então fluir.
Quando se tem o fluído, mas não se tem chance alguma e apenas reage-se por cadeia: age-se por conta de um erro seguido de outro erro. E desse jeito, na montanha de erros, os notáveis anônimos se apaixonam e inevitavelmente, muito se aproximam através da surrada literatura de seus desejos ardentes, entretanto, são estes pelo próprio medo, contidos.
Procuram-se todos os dias no próximo livro, na próxima canção. E na companhia diversa e nem tão divertida de outro pulsar, deitam, calam, nada falam no ficar.
Descem ao esgoto da insônia aflita, quebram-se na espinhas, cuida-se cada um na sua linha, sabida e já interligada em segredo pelo astuto destino. E com semblantes sempre sinônimos de quererem-se cada dia mais, cada vez mais. Quem levantará primeiro a bandeira da paz, e acabará de vez com a guerra que destrói o peito sonhador de observar acompanhado e nada acanhado, mais uma noite mágica e estelar?

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