O Homem que não mostrava os dentes, por Ricardo Gerstner

 

Era tarde de outono na estância de San Martin.
Herculado recolhia os cavalos de olho no tempo,
O dia seguinte prometia geada.
Iniciava a colheita do trigo na fazenda
Nada deveria prejudicar a safra.
Herculano era homem forte, cheio de remendos
Nas bombachas e botas surradas.
Um homem da lida sem estudo, mas com muito conhecimento.
Respeitado na região, montava um redomão que só a ele era odediente.
Não tinha muitos amigos, até por não saber mostrar os dentes.
Afeiçoou-se por Lívia, jovem debutante filha do estancieiro,
Loira de olhos azuis, um devaneio.
De voz doce e sorriso fácil, era filha terceira de seu Anastácio.
Tibério, caçula da família e irmão mais novo de Lívia,
Espelhava-se em Herculano para tudo: com ele aprendia a ferrar os cavalos e a cercar o gado.
O guri dividia seu dia entre a escola na vila e a tarde na fazenda,
Diversão garantida mesmo sem ver os dentes de seu instrutor.
Herculano: homem de confiança, mas sinônimo de suor e rancor?
Domingo de festa na estância vizinha,
A debutante indisposta preferiu ficar sozinha.
Deitada em seu quarto com a janela aberta, contemplava estrelas. Murmurou alguns pensamentos enquanto afinada cantava.
E tudo enegreceu. Havia muito horror desacreditado em seus olhos.
Relinchos de cavalo deflagraram o mau agouro.
Aquele homem pulou janela adentro.
Lívia gritou, esperneou, mas ninguém a ouviu.
Aquele homem que a viu crescer, que em sua casa sempre esteve a conviver, Atacou-lhe de olhos famintos sem palavra alguma pronunciar, estava
Louco, louco, louco!
Com uma das mãos ainda sujas de barro tampou-lhe a boca,
E com a outra rasgou-lhe a roupa.
Tirou o vestido, as calçolas e a viola.
Agora com as mãos sangrentas do crime que cometeu, pela mesma janela se escafedeu.

A Menina desonrada, sente na alma a dor de uma aliança quebrada.
Desesperada, desfalesce sem dizer mais nada.

Um cavalo partiu em disparada.
Era um peão a persegui-lo; pressentiu o mal cometido
E com muito ódio foi ter com o amigo.
Após léguas e léguas a cavalgar, deu-lhe um tiro de laço,
certeiro como um abraço, e num instante aquele homem
Despencou do cavalo para o chão.
E a pergunta veio irrevogável: Por que irmão?
Mas o ódio impossibilitava as palavras, eram só gritos e adagas.
Com poncho enrolado na mão,
O baeta vermelha arrastava no chão.
Cortes e escoriações, numa batalha sem fim,
Rios de sangue corriam a estrada, dois tauras sangrentos e adagas carneando o vento.

Dona Anna Encontra a filha na cama, desorientada.
Havia sangue como quem muito lutou,
Mas via-se que perdeu a batalha, a memória e a fala.
Dona Anna gritou ao relento. Pediu ajuda a Deus e aos ventos,
E saem os capatazes em disparada, seguindo a poeira da estrada
Com suas garruchas e espadas.

Encontram Herculano cansado, com sangue nas roupas e olho talhado. O outro peão com o bucho recortado.
Sem tempo para conversa:
A pólvora falou mais alto.
E com um tiro certeiro no peito, caiu Herculano na beira da estrada.
Todo aquele sangue o engasgava, mas seu olhar,
O olhar daquele homem forte, que não temia a morte,
Que não tinha sobrenome, nem mãe nem pai,
Aquele olhar que aos poucos foi embaçando
Viu os capatazes arrastando o outro corpo para seu lado.
Como oferenda para os urubus, ali deixados nus.

No alvorecer da madrugada, um mascate que por ali passava
Encontrou os corpos cobertos pela geada no meio do trigal.
Assustado com tanto sangue, verificou a respiração de Herculano quase a congelar,
Do outro, não havia mais como ajudar.
Colocou Herculano na carroça e saiu em direção à cidade,
O que fazer com um homem sem identidade?
Mais de dois meses de cuidados e Herculano finalmente convalesce.
Retoma o curso do Rio, pegando carona em um caminhão de gado,
Logo encontra um costado e tem muito trabalho a executar.
Sua força retorna, mas a memória ainda estava a procurar.
Um homem sem documento, sem sobrenome e agora sem história,
Por um pão, um vintém qualquer, trabalha como nos dias de glória.

E na estância ninguém acreditava no ocorrido.
Lívia deprimida, perdida dentro de si, buscava forças para sorrir.
Mas o tempo foi passando e o assunto nunca mais foi comentado.

Primaveras foram passando e Tibério encontrou no armário
Um caderno chaveado, comido por cupins e muito empoeirado.
Mostrou para Lívia que vislumbra o pequeno caderno com gana.
As lágrimas esquentam seu rosto, mas nenhuma palavra balbuciou.
O Homem, antes guri, olha para irmã e sorri,
Sente um feixe de felicidade no obscuro semblante de Lívia.
Quebra o cadeado com os dentes e começa a ler:

*“Linda flor matreira é da corticeira
Que nasceu na beira de um pequeno rio
Ela se estiola quando a ventarola
Quebra-lhe a corola sob um sol de estio”

Um espanto: Ouve-se um grito no canto!
Lívia se debanda a correr,
Corpo trêmulo e pernas bambas;
Semblante desperto e coração em chamas.
Sim, Lívia voltava a falar, não propriamente a falar… Lívia gritava:
HERCULANO!!!

Todos correram, queriam saber porque ela pronunciava o nome daquele desgraçado.
Ela então responde:“Herculano, meu amado”.
Dona Anna não acredita, até que escuta da filha o improvável;
Que ela, apaixonada pelo peão, ouvia este recitar-lhe poemas
Em sua janela como contos de ninar.
Nunca trocou uma palavra com seu amado,
O respeito andava lado a lado. Que não era ele o desgraçado!

Contaram-lhe que Herculano estaria morto,
Que seu corpo provavelmente fora comido pelos urubus.
Então Tibério disse:
“Na cidade, fala-se de um homem moribundo,
Que nem o diabo quis, pois coisa ruim não quebra”.
Seguiria ele a viver escondido numa tapera?
Fora ele mesmo seu instrutor? Pensou Tibério.
Estava confuso com tanto despautério!

Como localizar um homem sem nome e sem documento?
Provavelmente perdido no tempo?
Lívia aos prantos ao pai veio a implorar,
Que seus poemas na rádio pudesse recitar.
Todos os dias na hora do mate ao entardecer,
Lívia recitava os poemas que a fizeram renascer
Na intenção de que em algum lugar distante,
Mesmo depois do horizonte,
Aquele bravo e guerreiro homem
Pudesse dela com carinho lembrar.
E com mouro redomão antes do verão
Viesse buscar sua paixão.

22 de junho de 2017

Notas:

* Trecho do poema de Wilson Paim (Flor de corticeira)

Baeta Vermelha – Poncho com forro interno vermelho estilo uruguaio,

Bombacha – A bombacha é uma peça de roupa, calças típicas abotoadas no tornozelo, usada pelos gaúchos. O nome foi adotado do termo espanhol “bombacho”, que significa “calças largas”

Mascate – (Caixeiro-viajante) foi o nome dado no Brasil aos mercadores ambulantes e vendedores de “porta a porta”, também chamados de “turcos da prestação”. A origem do termo “mascate” vem do árabe El-Matrac, o vocábulo usado para designar os portugueses que, auxiliados pelos libaneses cristãos, tomaram a cidade de Mascate (no atual Omã) em 1507, levando mercadorias.

Mouro (cavalo) – pelagem de capa preta com difusão de pêlos brancos. Tem cabeça, patas, crinas e cola negras.
Poncho – (do quíchua: punchu), é uma vestimenta tradicional da América do Sul. O gaúcho do meio rural usa-o para proteção do frio e do vento, por sobre a vestimenta usual, sendo feito em teares com lã de ovelha. Nas cidades ainda se pode vê-lo em dias frios como sobretudo.

Redomão – diz-se de ou cavalo recém-domado, que ainda não está bem manso.
Taura: Diz-se do indivíduo valente, guapo, arrojado, destemido, valoroso, forte.

Ricardo GERSTNER, Nascido em Porto Alegre – RS em 1978, Gaúcho, atualmente residindo em Itajaí – SC