Quarta-feira de preto, por Patrícia Araújo Lima

 

O despertador toca. 7:00 da manhã. Levanto-me já exausto. Bebi a noite inteira, imaginei acordar com uma dor de cabeça infernal, mas nem isso. Quem se casa às 9:00 de uma terça-feira de fevereiro? Em pleno Carnaval? Por Deus! É fevereiro, é folia, estamos no Brasil. Não percam tempo, vão beber, dançar, falar bobagem, transar em alguma esquina temendo serem flagrados!

Eu sempre odiei as segundas, a partir de hoje serão dois dias insuportáveis no mês. Terça-feira. Fevereiro. Reviro a desordem das minhas memórias cansadas e fadadas a serem esquecidas em uma manhã de chuva. Foi nesse afamado mês também que nos conhecemos. Levanto e vou até o banheiro. No espelho, vejo o reflexo da minha incompetência em fingir que é apenas um casamento, logo vai acabar e voltarei para minha rotina impecável.

Ela nunca funcionou de manhã, talvez por isso esteja se casando, sua sanidade deve estar abalada por acordar cedo todos os dias para correr, outra novidade que me deixou consternado. Não acredito mais em nada e ninguém. As pessoas, elas não são confiáveis. Como pode ter mudado tanto? Um “novo amor” não pode transformar alguém dessa forma. Não deveria. Coloco a gravata. Ela dizia que a roupa social em tons escuros me caía muito bem, mas que de bermuda e esparramado no sofá, dormindo nos primeiros dez minutos de um filme, ficava mais elegante. Ela tinha dessas, de falar coisas sublimes em situações desastrosas e esbravejar em momentos de delicadeza. Nunca foi boa com meio termo. Nem no cabelo. Certa vez cortou o longo até a altura do ombro. Que espetáculo! Aliás, ela era mesmo assim, como um grande, barulhento e iluminado espetáculo. Sempre que chegava a qualquer recinto, ela acontecia. Nada mais importava. Nada tinha tanto peso. Absolutamente tudo nela brilhava com mais intensidade. Talvez por isso odiava quando passava horas e horas com conhecidos ou estranhos que não davam a devida atenção àquele acontecimento único. Não percebiam a mais profunda essência que ali habitava, que era majestosamente encantadora e deslumbrante. Por muitas vezes, eu fui um deles. Fui um dos melhores em ignorá-la, rejeitar seus sinais, demorar mais do que devia no banho. Eu tentei, mas tentei pouco, assumo. Hoje eu faria um pouco diferente, ou talvez não. Nunca se sabe o que fazer num segundo, até que o próximo aconteça. Faz tanto tempo. Pego as chaves do carro. Uma tímida lágrima teima em escorregar janela afora sentindo a força da avalanche de soluços que está por vir, mas clamo q seja firme. O Fim está próximo. Coloco o cinto de segurança. Sinto-me preso. Será a última vez que uso essa porcaria de cinto, juro!

Estaciono. Procuro um desconhecido. Preciso de uma válvula de escape. Perguntaria sobre seu descontentamento com o emprego, seus filhos, o cachorro que morreu e de como foi a separação. Qualquer um me serviria agora, menos os aparentemente felizes e satisfeitos com suas vidas medíocres, esses eu ignoro. Arranjei um chopp no boteco mais próximo do lado de fora da igreja. Ela sempre odiou o cheiro da cerveja, mas pedia para tomar apenas uma às vezes, mais precisamente porque queria me ouvir dizer coisas doces e suaves que eu não teria coragem de dizer sóbrio, com máscaras e filtros. Mas onde anda essa mulher? Dez minutos atrasada, jamais esperaria isso dela. Deve estar sentindo náuseas para manter o tradicional atraso. Se tivesse sido a primeira noiva a casar-se no mundo, a pontualidade seria a referência. O noivo já está impaciente, com razão. Vejo-o bater com os dedos no encosto de madeira que sustenta o jarro de flores. Girassóis magníficos, até hoje quando os vejo, o rosto dela se materializa como em um sonho. Todos focam para um lugar e meus olhos os acompanham. Ela acaba de sair do carro. Meu instinto de correr para dentro da igreja e me camuflar por entre os curiosos foi traído por uma paralisia instantânea. Tento fechar os olhos para não manter contato visual, mas é impossível. É Inevitável não focar naqueles olhos intensos, cheios de ternura. Deu um sorriso meio tímido e singelo de canto de boca que só a ela pertencia, como se dissesse que está feliz por eu estar ali. Quanta falta eu senti daquela presença. Talvez jamais conseguirei explicar com exatidão o que se passou nos poucos minutos antes de adentrar a igreja. Ignorou os dois ou três convidados que estavam fora como eu, correu até mim sem cuidado algum com aquele enorme véu. Tão espontânea como sempre. Chegou bem perto. Abriu o sorriso. É a coisa mais linda em qualquer raio de distância que existir entre nós e o mundo. Fotografei aquela imagem na minha mente por pura precaução, mesmo sabendo que ela já está entalhada lá faz tempo. Abraçamos-nos, não precisou dizer nada. Tudo já havia sido dito entre nós há anos. A voz embargada e o resto de bom senso que me restava deixou escapar um simplório “Parabéns!”. Mas pelo quê? Não conseguia enxergar qualquer celebração ali, ao contrário, estava morrendo. Era seu fim. Meu também. Os desavisados não vieram de preto, de certo não perceberam. De toda forma, tentarei velá-la com a maestria de um parente distante. É isso, sempre soube que nas igrejas aconteciam os maiores infortúnios. Quantas almas feridas já passaram por aqui? Quantos amores perdidos? Quantas vidas massacradas por toneladas de “Sim”? Quanta angústia cabe em um altar? Aqui se escondem as maiores tragédias da humanidade. Uma orgia todo domingo seria mais pura que essa cerimônia. Sinto que estou com febre. O padre diz coisas que não consigo compreender. Latim ou apenas a língua dos anjos? Na verdade, não ouço nada. Não estou aqui. Poucos sons ecoam na minha mente. Viajo em meus pensamentos, devaneio por acontecimentos irreais, planejo meu destino para as próximas férias, futuros surtos de euforia, próxima bebedeira com os poucos amigos que ainda me restam. Fito o cabelo mal arrumado da convidada sentada à minha frente, qualquer ponto fixo é mais agradável que aquelas duas mãos dadas juntando-se por um sentimento grotesco. Sinto enjoo. Não consigo respirar. Estou suando frio, que diabos!

“… Ou cale-se para sempre”. Essa é a hora? Esse é o aclamado sinal divino de um ato de amor impensado e heroico? É agora que fujo com a mocinha para bem longe desta imundície forjada de final feliz? Mas e se a protagonista não quiser fugir comigo? Pior, se ela realmente quiser ficar com o vilão? Oh, céus, que os anjos toquem suas trombetas! Meu corpo reverbera inteiro num súbito clamor de coragem, meus lábios trêmulos, meus olhos esbugalhados incompreendem o que está por vir. Impulsiono-me a levantar, uma mão repousa em meu ombro. Quem se atreve a me impedir? Deus ou o próprio Diabo? Alguém me alerta que já está tarde, a igreja irá fechar as suas malditas portas. Só então me dou conta que já é noite. Havia permanecido ali sentado o dia inteiro articulando meu plano de fuga de mim mesmo. Clarice jamais diria que a solidão é um luxo se me visse naquele instante.

Levanto com um pouco de dificuldade e confirmo que a idade vem me maltratando mais a cada dia. Saio cambaleando pelos degraus sagrados até o carro. Tropeço num dos cascos de cerveja esquecidos por um grupo de foliões. Nesse meio tempo, finalmente me vem uma epifania estupenda. Eu a perdi. A sensação física é mesmo de quem levou uma surra, a mental não consigo descrever. Não coloco o cinto, ligo o carro. Dirijo para algum lugar que não sei onde fica. Não consigo enxergar completamente a estrada. Há uma escuridão tenebrosa. Mais em mim que na estrada. Umas gotas d’água começam a beijar o chão. Apesar do barulho de felicidade alheia ao fundo, tudo me soa silencioso agora.  Vejo alguns arbustos e árvores na curva. Acelero. O céu se tornou estrelado, sem uma nuvem. Que bela paisagem para um discreto e último suspiro. 19:00 da noite. O fim nunca esteve tão próximo.

Patrícia Araujo Lima (Escritora e Professora de Língua Portuguesa)

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