Queriam-me mulher-flor, brotei mulher – cacto. Por Gabriela de Almeida.

Disseram-me, desde pequetitinha, que deveria esperar germinar em mim uma flor: cheia de pétalas macias e veludosas, preferencialmente cor-de-rosa. Coloquei uma sementinha no solo-centro do meu ser. Adubei. Agoei, agoei, agoei, até encharcar. Nada nasceu. Achei ter matado aquela semente-eu de tanta água, verti sangue. Percebi ser solo infértil, me abandonei. Dia desses, resolvi (re)olhar para dentro dos latifúndios do meu peito e vi que brotava algo. A esperança resolveu reaparecer. Tive mais zelo e fiquei cheia de dedos para tratar da flor-eu. Quando me dei conta, doía. Esperava crescer rosa, mas, para minha decepção, era só espinho. Eu tive raiva da inutilidade que enxergava naquele ser abrolhoso. Quem iria querer olhar aquilo que não tinha beleza ou sofisticação alguma? Mais uma vez abandonei. O solo ressecou, virei sertão, dentro de mim aparentava só aridez. Mas, tempos depois, senti-me chamada pelo canto do sabiá que contava notícias de chuva. Voltei. (Re)olhei para aquele amontoado espinhento: não consegui matá-lo, mesmo deixando-o solitário, ele resistiu. Encarei-o. Chorei pelo meu fracasso: me disseram que é tão bonito florescer pétala e eu só consegui brotar espinho. Deixei desaguar a decepção de ser eu. De repente, bateu sol. Vi que além de espinho, tinha caule verde e uma flor murchinha e avermelhada, que prometia frutificar. Naquele momento, me vi cacto. Olhei diferente. Até que achei cheio de boniteza e vida aquele ser que se mostrava auto-retrato meu. Onde ensinaram a me odiar? Cacto sou. Resistirei.

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