Recado de um cordel, de Zilmar Junior

 

Eu vou contar uma história

Uma história nada bonita

Que se passou num país

País de gente bonita

Leitor me dê atenção

Pois essa prosa é bem antiga.

 

Há muito tempo diziam

Que aqui se não tinha nada

Muito falavam, não faziam

E nóis comendo migalha

Cadê o dinheiro do povo?

Se mostram? Não vejo nada.

 

Aqui sempre foi assim

Não sei se sempre será…

Dizem que mato é capim

Quem sou eu pra duvidar?

Enquanto uns dão as cartas

A nois só resta jogar.

 

Mas essa história, meu povo

Parece sem pé nem cabeça

Não tem ouvido, nem olho

E que dirá uma coerência

Agora eu digo uma coisa:

Viver assim é sofrência.

 

Perguntam: que país é esse?

Onde é que eu vim para?

Eu que escolhi essa vida?

Escolhi esse lugar?

E se escolheram por mim?

Como que vou questionar?

 

 

O povo já tá cansado

De ouvir e só se calar

Vamos nos dá outro rumo

Na hora que nóis votar

Bote seu voto na urna

E a cabeça no lugar.

 

Aqui eu leio cordel

Amanhã leio promessa

Vai tudo já pelo o ralo

Só volta se for com reza

É blá blá blá para um lado

Um ti ti ti da miséria.

 

Educação eu não vi

Saúde o gato comeu

Cultura não conheci

Lazer de mim esqueceu

E vão passando os anos

E eu aqui só com o eu.

 

Já esqueceram de mim

Uma, três, dez, vinte vezes

Mas sempre voltam aqui

Com o sorriso nos dentes

Nas eleições somos amigos

Cimento, dinheiro e sementes.

 

Agora eu digo uma coisa

Sempre é hora de mudar

Se nois apertar o nó

Ele não vai desatar

É um caminho bem longo

Mas temos que nele andar

 

Eu escolhi escolher

A escolha que é a mais certa

Escolhi mais não sofrer

Escolhi sair da miséria

Agora que quero ver

Pois aqui será minha terra.

 

Não basta fazer muita coisa

Só nosso papel bem fazer

Ficar atento as escolhas

Na hora de escolher

Outubro já tá chegando

A hora do vamos ver.

 

Canse você das promessas

Das coisas ditas por ditas

Canse você desses ternos

Só não canse de política

Não canse de sua luta

De pé e cabeça erguida.

 

E é promessa de um lado

Promessas vai para o outro

Já prometeram de tudo

Porto, escolas e esgotos

Dessas promessa eu vi

Apenas uns três tijolos.

 

 

Muitos não tão nem aí

Palpites nem querem dá

Falam que é assim mesmo

Um dia vai melhorar

Mas fé sem ação é morta

Defunto não pode falar.

 

Se enquanto uns tão calados

Outros poucos falam por eles

Decidem o seu futuro

Se dormem em cama ou rede

E de tamanho é o sono

Não sonham. O sonho: acorda, ó gente.

 

Ó meu amigo, conselhos

Esse eu posso dá

Não posso ele vender

Nem muito menos alugar

Isso é cordel ou política

Você que vai me falar

 

Pra não ficar muito extensa

A prosa vou terminar

Foi bom conversar contigo

Espero a ti ajudar

Não se engane com pouco

Com pouco tu ficarás

 

Aqui eu mudo de ideia

E falo mais um pouquinho

Pois as palavras são soltas

Quem nem muitos passarinhos

Mais tempo eu vou ficar

Cordel tá sendo meu ninho.

 

Agora eu vou parar

Mas ainda tô preocupado

Se o amigo entendeu

Todo esse palavriado

Não sei se tenho certeza

Mas acho que dei o recado.

 

Zilmar é escritor em suas mais diversas vertentes. Sua produção é composta por textos como poesia, cordel e artigos científicos. É graduando do curso de Licenciatura Plena em Letras Português, o qual está cursando na Universidade Estadual do Piauí – UESPI. 

 

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