Recomeços, por Guilherme Aynerson.

Estou na banheira e meu celular está tocando “bom conselho”. Ah, Chico, tu já fizeste tanto por mim. Levanto-me e pego meu roupão, afinal, ele já está prestes a passar. Fui ao meu quarto e coloquei o meu melhor vestido. Para quem um dia já foi o meu melhor marido. Velho Chico, to seguindo o conselho, agindo duas vezes antes de pensar. E tá maravilhoso, sabe? Me permitir a permitir coisas que eu sempre quis fazer. Refazer. Tentar de novo. Ser quem eu sou. Talvez viver sem tabu seja isso, um grande mergulho em uma banheira. Escuto a buzina assim que termino de borrifar o perfume no meu pescoço. Você ainda tocava no meu celular, Chico. A mesma música, por que hoje eu estava precisando de um bom conselho. Um bom conselho, um bom vestido e um bom ex-marido. Que daqui a pouco pode se tornar só marido, sem o prefixo “ex”. Gritei um “já vou”. Ele sempre reclamava que eu me atrasava muito, mas hoje eu queria que tudo fosse diferente. Atrasei dois minutos, e assim que eu entrei no carro ele sorriu para mim. “Nossa, você mudou mesmo” ele disse. E eu sorri. Sorri para ele. Sorri para mim. Sorri para tudo que poderia vir. Jantamos em um restaurante qualquer. Pouco importa o restaurante quando têm-se a companhia de alguém tão especial. Sorrimos como adolescentes. Meu pé balançava na mesma velocidade que a conversa fluía. A mão dele estava gelada assim como a primeira vez que saímos. Ele não estava bêbado. E eu estava feliz. Como nunca mais tinha sido. Você era a metade que coube em mim, e depois não encaixou mais. Mas quem falou que só pode-se tentar completar o quebra-cabeça uma vez? E então, depois da noite maravilhosa, fomos para casa. E eu te coloquei para tocar no carro Chico, pelo belo conselho que havia me dado. E eu cantava e ele sorria, e as dores saíam como passarinhos. E a noite estava feliz. Eu estava me deixando queimar. Eu estava sendo eu. Paramos o carro e foi a hora da primeira partida, que podia significar o começo de várias chegadas. Poderia. Começou a serenar. O clima esfriou, mas eu ainda estava queimando de alegria por dentro. Assuntos vem e vão, apenas pra prolongar um momento. Mania essa nossa, né Chico, de querer sempre continuar coisas que já deviam ter terminado. Não sei se me refiro ao momento ou ao casamento. Que antes mesmo de começar a voltar a vida, morreu. Quando senti a mão dele encostar no meu rosto. Eu jurava que era um carinho. Mas aquele tapa, só por que não concordei com os pensamentos políticos dele, fez cada pássaro voltar. Cada sorriso chorar. Cada parte de mim sangrar. Menina idiota. Ele gritou. E eu saí correndo pela garoa que agora estava virando uma chuva cada vez mais forte. Entrei em casa e eu só era dor. Tirei a roupa e fiquei nua, embora eu já me sentisse assim antes mesmo de me despir. Ele não havia mudado. Mania essa minha de ter medo de pontos finais. Choro inconsolavelmente com raiva de ti, dele e por fim de mim. No fim da noite, quando resolvo que dormir é uma decisão mais sábia que chorar, boto a sua música de novo, Chico. Mas eu sei o que você vai dizer, inútil dormir que a dor não passa.
Designed by Freepik