Tainha Miruca, o destemido. Francinalda Rodrigues

 

Tainha é um peixe muito esperto, faz piruetas, vira cambalhotas, brinca de esconde-esconde com os pescadores para escapar de suas redes, pois é a isca predileta deles quando eles têm a intenção de pegar peixes maiores. Ainda pequena é chamada de sauna, mas há uma discussão entre os pescadores e os pesquisadores de acharem que são espécies diferentes.
Um dia uma tainha muita corajosa chamada Miruca resolveu passear no estuário do Timonha e Ubatuba. O estuário é um ambiente aquático entre o rio e o mar. No seu passeio encontrou seus amigos e foram juntos formando cardumes. Um de cada vez, dava um pulo na superfície das águas fazendo com que os pescadores desejassem jogar suas redes e, quando acontecia de jogar, nada conseguiam porque as tainhas logo se espalhavam na maior rapidez. Depois de cansarem de tanto brincar com os humanos, resolviam continuar o passeio.

Ao se aproximar do mangue viveram uma aventura incrível, perceberam quanta beleza era formado nesse ambiente e a quantidade de peixinhos e caranguejos novos que estavam por lá, era como um berçário com tantos filhotes. Quando estavam contemplando aquela beleza viram uns animaizinhos diferentes passando, como se estivessem alvoraçados porque alguma coisa de ruim estava acontecendo.

A tainha Miruca se aproximou e puxou conversa: ___Como é o seu nome? Logo um peixe lhe deu atenção e respondeu: ___Sou o peixe Caca e faço parte dos cavalos marinhos. Temos um corpo diferente dos outros peixes, com uma cabeça que lembra a crina do cavalo, conseguimos mudar de cor e mexer os olhos independente do outro. E a grande diferença que temos dos outros animais é que são os machos que guardam os ovos com seus filhotes. Caca falava com muita empolgação e sem parar. Miruca já estava tonto de tanta falação que resolveu interromper o peixe. ___E o que está acontecendo com sua família? Por que todos estão correndo desesperadamente? Caca falou mais calmamente: ___É que meu pai está tendo um novo filhote, como ele é muito velho talvez precise de ajuda e ainda para piorar ele não conseguiu ir para um lugar seguro e acabou preso por humanos, que o colocam dentro de uma vasilha de palha e levaram para o seco. E nada podemos fazer, pois se formos para lá também poderemos ser capturados. E assim, a nossa espécie a cada dia vai se acabando, entrando em processo de extinção.

A tainha Miruca passou o dia triste, pensativa tentando encontrar solução para ajudar os cavalos marinhos que viviam sobressaltados com essa vida de perseguição pelos humanos. Assim, lembrou que tinha um amigão, Manati (nome indígena do peixe boi) e resolveu bater um papo com ele. Mas, ao chegar em sua casa teve que se esconder, pois viu que acontecia algo estranho com o seu amigo. Estava passando perto do local de onde ficava o Manati com seus irmãos, um barco que na parte de fora em seu fundo ia levando um aparelho que me deixou sem nada entender. Mas, ao observar direitinho vi que não estavam fazendo nada de mal, era o pessoal legal da CIA que realizam o monitoramento mensal para verificar quantos da espécie do peixe boi existem nessa região.

Então, me aproximei do meu amigo e passamos horas conversando. Uma coisa que me chamou a atenção foi que ele me explicou que antigamente existiam muitos de sua espécie e que hoje estão também ameaçados de extinção, principalmente porque o seu ambiente natural não está sendo tão cuidado como antes, tem muito lixo espalhado e o ambiente natural onde encontra alimentação está cada vez mais escasso. Aconselhou-me a procurar o senhor das pedras para ter uma conversa e quem sabe tentar ter uma solução.

O senhor das pedras (Mero) é um peixe que vive no fundo do mar e também está em extinção. Cresce lentamente, pode chegar a dois metros e meio de comprimento e a pesar 400 kg. Por ter o costume de crescer lento é alvo fácil para quem quer pegá-lo, principalmente por sua docilidade. Assim sendo, Miruca resolveu dar um grande mergulho e encontrou Mero. Este com seu jeitão sério o levou até sua casa e mostrou o motivo de ficar parecido com as pedras. Era só para fugir dos inimigos naturais e também do homem.

E disse: ___Antes eu vivia na liberdade, pois o homem não se interessava em comer minha espécie. Com o passar do tempo surgiram pessoas que passaram a desejar comer minha carne e cada vez mais estamos diminuindo, chegando até a extinção. Há casos em que pescadores não me pegam, mas para outros a pesca predileta sou eu. Vivo nesse tormento. Nem sei como poder lhe ajudar, pois vivo na mesma situação do cavalo marinho. E se você procurasse as tartarugas marinhas talvez elas pudessem ajudar.

Miruca seguiu mergulhando no estuário a procura de solução.

Francinalda Maria Rodrigues da Rocha (Escritora e Professora)

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