Tempos modernos, Por Jullyane Alves Teixeira.

Vivo a rotina incessante de caminhar todos os dias pelos mesmos corredores para me enclausurar na mesma sala fechada e me cobrir de papéis e burocracias. Minhas solas estão gastas, cabem já os desenhos dos meus pés. A mente cansada praticamente não enxerga adiante a próxima tarefa. A mais-valia me escorre nos dedos, enriquecendo diariamente quem me rouba a alegria de viver nos anos que deveriam ser mais meus. Volto pra casa e estou presa novamente em um bloco de concreto, com porteiro 24 horas, onde nem sei o nome dos meus vizinhos e as crianças têm tablets antes de bicicletas.
Tenho a impressão de que não faz muito tempo, eu ainda era livre dessas amarras e adorava prestar atenção aos cenários em volta de mim. Não precisava me preocupar com o trânsito, não sabia dirigir nem tinha carro, mas tinha a vastidão do mundo a observar. Andava a pé, via cachorros, praças, crianças brincando. Esperava o ônibus, sempre atenta a quem passava, os namorados em conversas de pé de ouvido, os ambulantes oferecendo seus produtos, crianças chupando pirulitos. Meus trajetos de ônibus sempre foram longos. Na maioria das vezes, usava aquele tempo para ler, mergulhava na história e num instante chegava ao meu destino. Ainda hoje, sempre levo um livro comigo para qualquer lugar, mesmo sabendo que nem terei tempo de abri-lo, me sinto mais confiante só em tê-lo junto a mim.
Algumas vezes, ficava olhando paisagens, memorizando esquinas e letreiros, apreciando a vida que se espalhava pelas janelas como fotografias instantâneas, imaginando as histórias por trás daqueles pequenos recortes da realidade de desconhecidos. Outras tantas, ficava prestando atenção no que se desenrolava ao meu redor, curiosa do desfecho de uma conversa no banco à frente do meu. As pessoas que iam comigo, mesmo que eu nem soubesse o nome, me pareciam tão familiares como se fôssemos muito próximas.
As crianças ainda brincavam na rua e os vizinhos sentavam-se às portas para conversar e ver a vida dos outros. As mães precisavam sempre chamar os filhos quando ficava muito tarde para que eles, relutantes, acabassem as brincadeiras. Lembro-me de quando ganhei minha primeira bicicleta… voltamos às bicicletas! Sempre as adorei! Chegava da escola e não perdia tempo, não importava a hora do almoço nem o sol a pino. Percorria as ruas do meu pequeno bairro e me aventurava nas ladeiras de piçarra dos terrenos ainda baldios das redondezas, sem medo. Tudo o que eu tinha era a minha liberdade, hoje não consigo comprá-la por dinheiro nenhum.
Eu tenho um sonho e o acalento quando a desesperança me ronda. Nele, ando descalça, olho o mar, corro atrás de borboletas. Sinto a chuva cair no rosto sem me preocupar com maquiagem e cabelos alinhados. Leio um livro tranquilamente enquanto me balanço numa rede. Cuido das minhas plantas sem pressa, apreciando suas novas florações. Amo meu corpo, me visto de vento e poesia. Celebro o amor e a natureza, na certeza de que ninguém mais morrerá de fome no mundo. E, assim, com a memória do que ainda não vivi, embalo promessas de dias melhores sem me preocupar com a violência e o fim do mês, inspiro profundamente e arranjo forças para mais um dia.

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